Páginas de poesias

Branco de nome só

                 À tia Hirondina Zau (post mortem)

Dizem que sou branco.
Mas branco… é nome de giz.
É parede antes do poema.
É silêncio que ainda não escolheu palavras. 

Sou português.
Mas será que isso tem cor?

Será que o fado é mais puro
se nascer de garganta sem mistura?


Será que a alma se mede
em tonalidade de pele?

Na bandeira – não há cor de gente.
Só verde esperança,
e vermelho de quem caiu de pé.


Mas nos corredores do poder,
há portas que se abrem mais depressa
pra certos tons.
Portas que se fecham com “talvez”,
quando o rosto não diz “sim senhor”.

E alguém me pergunta:
“Se os nórdicos são mais brancos,
são mais justos?
Mais europeus?
Mais donos do que é ser daqui?”

Mas a minha tia Hirondina dizia:
“O valor não nasce na pele.
Nasce na forma como acolhes
sem medir o tom do outro.”

E eu vi.
Vi gente a ser empurrada pra fora
de uma pátria que sempre foi sua.
Vi “tu não és daqui”
dizer mais do que o passaporte.

Mas a pátria,
ah, a pátria é mais do que um documento.
É o cheiro da cozinha cruzada,
a canção onde batuque encontra guitarra,
a dança dos avós nos pés dos netos.

O racismo…
não vive só nos gritos das ruas escondidas.
Vive no silêncio das reuniões.
Na dúvida nos olhos.
Na escola onde se espera menos.
No emprego onde se exige mais. 

E por isso,
eu escrevo.

Não só por revolta,
mas por memória.
Por justiça.
Por um país que saiba que a cor da pele
não decide pertença.

Portugal não é uma nota só.
É harmonia feita de vozes múltiplas.
É mais inteiro
quanto mais diverso se reconhecer.

E se sou branco…
sou branco de nome só.
Porque a alma,
essa – tem todas as cores.

 

Teu Olhar       

        In memoriam de Alberto Brandão I

Tanto briguei comigo mesmo
Por pouco ter dedicado tempo
Para olhar fundo em teu olhar,
Carregado de bondade infinita,
Que em meu próprio ombro chorei.

Hoje, estou olhando de longe,
De muito longe, no abismo do tempo,
Para si que está diante de mim,
Pertinho, que se a mão alongasse,
Sua face tocaria, trémulo e triste.

A luz da sua bondade me guia,
Quando lágrimas de dor me atingem,
De leve, sem aviso, o peito dilacerado,
Lembrando toda a sua beneficência,
Inclino-me para lhe prestar homenagem.[1]

Agradecimento

           In memoriam de Alberto Brandão – II

Em memória do grande amigo, Brandão,
Cuja vida foi um farol, uma inspiração.
Com 95 anos de sabedoria e amor,
Apoiou-me nos estudos, com imenso fervor.

Alberto, teu nome ressoa em meu coração,
Compadre querido, tua vida foi uma canção.
Nos dias de lutas, foste meu guia fiel,
Semeando esperança, tornando meus sonhos um céu.

Em cada aula, em cada lição,
Sentia tua presença, tua dedicação.
Com tua generosidade, abriste-me portas,
Mostrando que o conhecimento é uma das maiores fortunas.

Agora que partiste para a eternidade,
Deixaste um legado de imensa saudade.
Tua memória vive em cada vitória,
Em cada página virada, em cada história.

Descansa em paz, amigo e mentor,
Teu espírito brilha com eterno fulgor.
Alberto Brandão, serás sempre lembrado,
Como o grande amigo que foi meu aliado.[2]

Meu guia

In memoriam de Alberto Brandão III

No compasso dos teus passos, encontrei a direção,
Compadre e amigo, foste farol na escuridão.
Com 95 anos de sabedoria e bondade,

Apoiaste-me nos estudos com imensa generosidade.

Nos dias difíceis, foste meu porto seguro,
Semeando na minha vida um futuro mais puro.
Cada lição aprendida, cada sonho cultivado,
Trazia em si o carinho de um apoio sagrado.

Agora que partiste, deixaste um vazio,
Mas teu legado vive em cada desafio.
Nas lembranças doces, em cada conquista,
Estarás sempre presente, numa saudade mista.

Grande amigo, tua amizade foi luz e calor,
Eternamente grato, guardo-te com fervor.
Descansa em paz, no eterno jardim,
Teu espírito vive em cada vitória em mim.[3]

 

A dor do parto do arquipélago

         Aos emigrantes – versos das ilhas

 

Filho meu, eu te gerei no monturo da dor

Quando a luz de uma lamparina dançava na treva

Mas tu, triste desde a nascença, olhos no alto

Foste um navio com a proa de aço amalgamado

Forjado na essência de saudade e de ausência.

 

Mamãe terra, daqui dum ponto fixo na diáspora

Os agravos são muitos e nas tuas pupilas mortas

Vejo o reflexo antigo dos círios a dançar na treva,

O incondicional amor que em mim depositaste.

Mas há quem procura desviar de mim tua mirada.

 

Audácia filho, presume-se que eu para ti não nasci

Mas tu andas sempre a procurar-me na noite

Por estranhos trilhos, cheios de pedregulhos

Dentro de mim ando a clamar e a chamar por ti

Mas há quem procura desviar de mim tua mirada.

 

Só quero agradecer-te e dizer-te de longe, mãe-Terra

Obrigado, beijar a tua face inerte, pálida e triste

Humilde face macerada agora desalentada

Vendo os teus filhos no cais da partida

Sem ao menos poder beijar-te e abraçar-te.

 

Filho, há longos espinhos aguçados nesta praça

Rasgando pouco a pouco meus nervos afetivos.

Deixa-me também beijar-te lá do cais de partida

As tuas mãos flageladas pelo sol da saudade

E por quem ainda procura desviar a tua chegada.

 

Mãe-Terra, quanta ausência mora nessa ineficiente gestão?

Quantas lágrimas de dor se consome e arde meu coração?

Do bonançoso flanco de teu corpo majestoso e inerte

Contemplo-te, admirado, mãe-Terra, com olhos marejados

Com um sentir puro de filho sempre a clamar por ti.[1]

 

[1] Espanha, 3 de agosto de 2022. A terra-mãe chama os seus filhos emigrantes e chora por os ver partir sem pisar o solo natal por causa da má gestão dos transportes públicos. Não existe plano B nem C. Há má gestão dos clientes. Uma vergonha nacional. Estes versos foram inspirados pela poesia “vigília” de Helena Kolody.

 

Quo Vadis, Cabo Verde?

     

A Busca pelo Rumo

 

Em cada ilha, um eco que ressoa,

Nos debates acesos, a voz se entoa. 

Quo vadis? – a pergunta paira no ar,

Enquanto o horizonte espera o caminhar.

 

Barcos persistentes desafiam o mar,

Unindo destinos que teimam em falhar.

Entre os contratempos que o dia consome,

O utente espera por mais do que um nome.

 

Rios de esperança, em prece a correr,

Buscam no oceano o modo de renascer.

Quem entende os rios, respeita o imenso mar,

Mas falta, no debate, o saber navegar.

 

A força da gente, às vezes esquecida,

Clama por ser, enfim, acolhida.

Na arena onde a palavra dita se mistura,

Que o diálogo recupere a sua tessitura.

 

Promessas ao vento, caminhos incertos,

A responsabilidade em gestos dispersos.

Dói a distância entre o dito e a ação,

Enquanto as ilhas pedem renovação.

 

Quisera que os rostos buscassem a razão,

Fazendo da união a real missão.

Que os enlaces do transporte encontrem saída,

E uma nova visão floresça na vida.

 

Por trás das palavras, a esperança brilha,

No sonho de quem refaz a trilha.

Cabo Verde, no brilho do povo, reluz:

É na busca serena que a vida se conduz.[1]

 

Um desafio à mobilidade

Oh, Cabo Verde, berço em mar profundo,  

Teus rios fluem, buscando um novo mundo.  

Quo vadis? - Gritam as vozes aflitas,  

Nos corredores do poder, as verdades são malditas.

 

Entre as ilhas, o transporte é desafio,  

A razão se esconde, no eco do desprezo e do vazio.  

Os utentes clamam, com dor em sua jornada,  

Enquanto os partidos em altercações se enredam.

 

Nas câmaras, debate é guerra sem fim,  

Promessas vazias, um jogo tão subtil.  

Os destinos se perdem, lançados ao mar,  

Quem conhece os rios, a rota pode traçar.

 

Mas o que se vê é a sombra da indecisão,  

A força da sociedade sem voz na decisão.  

Negligenciada, implora pela verdade,  

Entre os lamentos, encontro a vontade.

 

Desapontam os discursos, tão frios, tão vazios,  

Falta de caráter nos números e desafios.  

Mais que palavras, precisamos de ação,  

O futuro das ilhas clama por união.

 

Oh, transportes, arte da interligação,  

Que a política não sangre a esperança da nação.  

Que nos debates, a coragem venha à tona,  

E que cada barco, ao seu destino, retoma.

 

Nas ondas do mar, que o diálogo flua,  

E que a verdade seja sempre a tua.  

Assim, Cabo Verde, em pé de igualdade,  

Transformar os debates em voz de serenidade.[2]

 

Ilhas que se contemplam de longe

Ilhas irmãs, separadas por mar,
onde o tempo passa, mas custa a andar.
Vê-se a costa, sente-se o cheiro,
mas chegar lá… só num sonho inteiro.

 

Barcos que falham, voos que não vêm,
e o povo espera, como sempre, ninguém.
Doente ou estudante, pescador ou mãe,
todos presos num destino que pouco convém.

 

Há quem nasça em Santo Antão,
mas morra sem ver Brava ou Fogo ao chão.
Cada ilha é um mundo fechado a cadeado,
por políticas lentas e um Estado calado.

 

Mobilidade? Palavra bonita no papel,
mas sem navio, sem plano, sem céu.
Promessas lançadas com voz de ocasião,
morrem nas ondas da desatenção.

 

E nós? Nós somos cabo-verdianos,
de todas as ilhas, de todos os planos.
Queremos pontes – ainda que de mar –
para que nenhum irmão fique por visitar.

 

Que esta poesia seja grito e tambor,
ecoando na praia, no monte, no amor.
Porque país sem ligação, sem união,
é só arquipélago, não é nação.

 

Brincar com o fogo

Aos meus amigos na diáspora cabo-verdiana.

Ilusões dispersas pelas ruas do mundo

Como grãos de areias das nossas praias

Correios surdos das nossas saudades

Que chegam na espuma branca das ondas

E ficam sepultadas no anonimato das areias.

 

Ontem com esperanças olhava tudo ao meu redor

Construindo, pouco a pouco, pedra a pedra, ilha a ilha

A ponte simbólica de união Cabo Verde-diáspora

Hoje prevejo derrotas em tudo que move ao derredor:

Nas nuvens lá no alto, nas faces petrificadas dos políticos...

 

Nas classes que nos governam já não mais guardo

Esperanças prometidas nas suas poesias, e tudo mais.

Já não espero coisa nenhuma e nada me espera

Exceto venda nos olhos, mordaça, prisão, morte

Pois, graduados tornam-se ministros sem nada saber...

 

O desespero força-me a marchar através do fogo

Pois salvar o nome da liberdade urge um outro esforço

Titânico como outra luta contra braços erguidos

Para nos impedir o caminho: policias à frente de hospitais,

Falta de transportes para nos fazer à casa chegar...

Juntando tudo à pesada, morosa e desleal burocracia.

 

Zumbaias da Política

Nos palanques grandiosos, os discursos a brilhar, 

Brilham as zumbaias com seu tom a encantar. 

“Ó que grande líder!”, ecoa o verso lisonjeiro, 

Na dança das palavras, o jogo é certeiro.

 

Sorrisos bem largos, abraços sem fim, 

As promessas voam como nuvens de marfim. 

“Teu olhar é um farol, tua voz uma canção, 

Faz sair da sombra até a mais dura prisão.”

 

Mas sob o brilho falso, a verdade se esconde, 

Regalias se tecem em promessas que rondem. 

É festa na praça, mas a alma a pagar, 

Na política do aplauso, quem se atreve a pensar?

 

E se a bajulação tece tramas subtis, 

Os interesses ocultos dançam em perfis. 

Como flores que murcham sob o sol da razão, 

As zumbaias se vão, mas deixa a desilusão.

 

Que a arte do dirigir não se perca em delírios, 

Que os ecos da lisonja não sejam meros fios. 

Que a política se vista em verdades profundas, 

E as zumbaias se calem, para que a esperança infunda.

 

Na dança da vida, que a voz seja fiel, 

A sabedoria brilha, como um Sol sem véu. 

Assim, que as zumbaias se transformem em ação, 

E traga a soberania um futuro em união.[3]

 

[1] Oslo, 20 de setembro de 2024.

[2] Oslo, 20 de setembro de 2024.

[3] Oslo, 18.10.2024.

 

[1] Oslo, 12.6.2024.

[2] Oslo, 12.6.2024.

[3] Oslo, 12.6.2024.

 

Do funco ao sobrado

 

Com o sal sublime

Suspenso

No pingo de lágrimas,

Carregado de dor,

 

Dor tão sublime e pura

Repleto de poeira das flores,

Esses globos cor-de-ouro

Gotejando face abaixo.

 

Passeando por trilhos anosos

Com ar de poeta sonso

Enquanto a pele de rugas enche

Floresce, murcha e desfolha.

 

Gira a terra indolentemente

Eu, gravitando, com as primaveras

Pactuado com o astro-rei

Enquanto, sorrindo, criava rimas veras

 

Rimas autênticas, lá dos funcos

Me estenderam as mãos

Como se fosse um convite vero

Ao sobrado, com ar sorridente.

 

Nas tardes vagarosas do tempo

Olhava para o brilho das lamparinas

Saltitando do interior das moradas

E, eu, tropeçava, nas flores do cardo.

 

As flores agrestes dos cardos

Zangadas, com o empurrão inocente

Recompunham-se, sacudindo o embate

Endireitando-se, de jeito afanoso.

 

O cata-vento com acenos me sufocava

E convites evasivos

Que geravam sonhos repetidos

Simplesmente insuportáveis.

 

Teci as cortinas do meu sobrado

Compradas com o veludo da minha carne

Com sorrisos e com flores

Com que enfeitei a aba cor-de-ouro.

 

Sou um eufórico tecelão

Tecendo fundas fundas

Com fibras da minha derma

Com mil dedos de vontades.

 

Sou um tecelão de versos

Feitos com nervos do meu ser

Para eternizar uns instantes

Na efemeridade da vida.

 

De quando em quando escapava

Para as margens das ribeiras

E sem nada fazer, vagueava

Até chegarem as ameaças  lá da casa.

 

Perscrutava os montes imponentes

Que espreitavam as estrelas

As estrelas

Que os homens não conseguem ver.

 

O Montrabaz

Olhando o de NhaSantana,

Com ar de superioridade

Abraça o de Laranjeira.

 

Esses cones enormes, quais gigantes

Altivos, parecem mamas disformes da ilha

Com que a terra nutre com o nada seus filhos

Na carestia cíclica dos tempos.

 

Os outros montes, filhos da Mãe-ilha

O Garça, o SantaBarbara, o Barro, o Preto

Gotejam no ventre a magma solidificada

Da paciência que endurece os filhos da ilha.

 

Logo ao pé de Montrabaz

A pequena e modesta aldeia

Fustigada pela soalheira

Mal acabar de o sol nascer.

 

No fundo da aldeia, perto do ocaso

Numa modesta casinha-buraca

Repete-se as rotinas diárias

Até chegar o pôr-do-sol.

 

O sol volta e saúda de novo,

Rotineiramente, os aldeões

Convidando-os ao labor

Ao labor sem recompensa.

 

Ao ponto de revolta de um aldeão,

Um tecelão de versos ledos e tristes,

Convidara ao sol luzente

A um encontro ao pé do monte.

 

Ele enviou seus raios refulgentes

Metendo medo  a um tecelão pecador

- Perguntou ao chegar onde estava a catchupa

- Não há milho astro divino!

 

Com xixi a espreitar das calças

O sol desviou seus raios para o lado da noite

A lua curvada apontou o rosto

Interrompendo o diálogo.

 

Com o coração a saltitar pela boca

Cortando as interrogações postas no diálogo

Entre a gazela islenha e o astro divino

A lua interpôs-se reverentemente.

 

Reverentemente a lua interpôs-se

Entre mim e o astro-rei

Eclipsando o brilho perturbador

E até a eternidade ficamos amigos.

 

O sol, o milagre da vida, segurando-me o braço

Disse: vamos nós os dois brilhar

Cada um da sua maneira

Cada um a seu jeito peculiar.

 

Debandei-me exausto pela conversa

Fui-me entregar à faina costumeira

Da horticultura sem pecúlio, da poesia

Com que reguei estes versos.

 

Eu, o artesão, o destino me expulsou

E fui entupir a caserna da expatriação

E no meu pequeno mundo caseiro

Sem os raiozinhos constantes do sol,

 

O fabricante da tónica dos ossos,

Donde daria todo o mundo

As fortunas incansavelmente havidas

Para um dia à terra regressar.

 

Para ver os montes e florestas desérticas

Despidos de vida, ainda prostrados

Eternamente, espiando os mares

E seus filhos, em eterna reverência.

 

Incertezas ocorrentes insinuavam:

Questionava sempre; se era ou não branco

O cavalo branco de Napoleão.

Para mim, não interessava a cinza do passado.

 

Eu sou uma das gazelas humanas

Que mal abandonara a casca

Atracara-se à enxada enferrujada

Com a quilha enterrada na terra.

 

Em cortesia aos funcos, imortalizo-os

Dobrado sobre as páginas da vida

Estanco as estrofes no túmulo dos livros.

E as lágrimas secaram na rotineira luta.

                                    Oslo, 11.02.2017

 Domingos Barbosa da Silva

 

 

5 de Julho (2017)

                 A Cabo Verde

 

Tua Liberdade

Liberdade envolta de responsabilidade

Tua sinfonia da vida

O motivo do nosso destino.

 

Instalaste dentro de nós

Um quebrador de grilhões

Que habita em não sei onde

Nos corredores da nossa mente.

 

Entre as moléculas e o ser

Há esse apetite rendoso

Que saltita de poio em poio

Em notas melódicas e sinfónicas.

 

Este dia é tua sinfonia

Este dia é o eco dos teus gritos

Que despertaram dentro de ti

Outros gritos em ti dormentes.

 

Semeias esta nossa amada pátria

No teu chão de liberdade

Com as tuas asas abertas sobre nós

Sentimos o triunfo de um espírito livre.

 

Saltitando de pavilhões nocturnos

Para os andaimes do instante

Com tuas asas libertadoras

Nos situas nas brisas fúlgidas do tempo.

 

Sob golpes que o tempo remessa

Persiste o amor em ti plantado

Perto ou longe se iguala o amor

Só as garras da morte nos apartam.

                      Oslo, 5 de Julho 2017

 Domingos Barbosa da Silva

 

 

Uma incrível queda

 

Surgem do beco com a lança

Com a língua suja de pecado

Espreitando maviosidades

Nas horas agoirentas do dia.

 

De um pedestal quedou vates

Numa triste baixeza, abalável atitude

Só para dar um coice a um idiota

Que do que faz nada percebe.

 

Ai que grotesca linguagem do vate

Que não cabe na balança judiciária

Que fere mais que a lança gigante

Que o soldado Longines empunha.

 

Chegam os Le Pens e os Trumps

Movendo entre louças de armazéns

Com braços maquinais, fogos na língua

Espandongando as paixões da vida.

 

Erigem gigantescos muros

Sobre os muros a polícia secreta

Na patrulha de contrários cogitares

Apoucando o rosto do amor.

 

Nesta triste análise das coisas

Levo na bagagem vazia de desprezo

Com a indiferença dos cegos carrego

O ar indolente de um cabo-verdiano idiota.

 

A besta que em mim dorme estremeceu

Num lugar qualquer dentro de mim

Com a sequidão infernal de vingança,

De repente congelou, após raciocinar.

 

Queria escrever um poema clemente

Sem a tinta do ódio nas palavras

Sem a brutalidade engenhosa

Que pinga gota a gota nos jornais.

 

Queria ser o “poeta” dos ignorantes

Sentado no laboratório da Panaceia

A fabricar versos para todos os males

Que padece este nosso mundo.

                        Oslo, 05.07.17

Domingos Barbosa da Silva

 

 

São Lourenço do Fogo

 

A Igreja chora quando chove

Os fiéis levam guarda-chuvas

Do tecto pinga a água.

 

Quando a chuva bate no telhado

Todos levantam o seu guarda-chuva

Para não se molharem.

 

Clamam ao Céu num murmúrio

Imaginando um tecto

De que não mais pinga.

 

Semeiam na fé a esperança

E esperam dos Amigos

Que o milagre aconteça.

 

Rogam aos céus

Que essa chuva venha sempre

E caia nos beirais do telhado.

 

Que o sol se apague de mansinho

E caia mais chuva branda

Excepto dentro da Igreja.

 

Este sonho louco dos fiéis

Emerge agora na diáspora amiga

Implorando com sua ocarina.

 

Pintam estes sonhos nas paredes

Atrás do altar, um presente

Todo, ao alcance das mãos.

 

No fim, ficam sorrindo os fiéis

Batendo palmas de alegria

Que já não pinga dentro da igreja.

 

“Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.”

 

Domingos Barbosa da Silva

Noruega / Norway, 11.6.17

 

 

 

 

Vulcão em erupção

 

Um presente


Embalsamo dentro deste pacote

Um pó fino de estrela, para ti

Não o abre antes de amanhecer

É só um presente, não precisas agradecer.


O anjo que me serve de carteiro

Te dirá que é para tratar com cuidado

O que no papel de seda está embrulhado,

Num tom feliz que te trás desespero.


Adiantando, te confesso minha amiga

Leva a luz da minha alma o pacote

Afagos e colorido em busca de deleite

E da fragrância que nos envolve de alegria.


Então, quando a madrugada chegar

Com cuidado dos deuses, abre o papel aveludado

Encontrarás lá dentro o brilho das estrelas

É o perfume dum amor embalsamado.

 

 

 

Recordar é viver

            Aos meus primos na Merca

 

Recordando o real perto de uma praia

Depois de sintonizar a corda fininha

De um violão, aquela fina e doce prima

Que bebeu um pouco da minha emoção

Num jeito alegre de uma flor ao luar

Atraindo-me, cativando-me àquela praia

Para um piquenique tão bom, tão prazeroso.

 

O caminho longe, encurtado pela amizade

Momentos dignificantes, nas curvas da saudade

Vibraram nas primas de especiais instrumentos

Naqueles momentos de inesquecíveis tardes

Colocados no perfeito átrio do Altíssimo,

Mais fortes que a luz e o brolho do sol,

Abençoados com o suave jeito da flor ao luar.

 

Cravado em mim, sinto inda aqueles abraços

Para muitos, surpreendentes momentos

Escapando de tão longe olhos ciumentos

Apegos que vão espelhando em nossas almas

Em pulsações de calor de fraterna natureza

Transformando alegres instantes a curta presença

E um chegar e partir que no tempo se irmanam.

 

Florida, 4 de Junho de 2016

 

 

Parabéns, Cabo Verde

            Oslo, 5 de Julho 2016

 

Hoje, venho procurar-te

Por teu amor molhar os olhos

Venho segredar ao sal

Destas lágrimas vertidas,

Nos píncaros da saudade,

Pelo teu filho foragido

A procura do teu poema

Na orla do teu oceano.

 

Depois de por ti molhar os olhos

Um silencio erguendo na vastidão

Esculpindo numa prece um sorriso

Um sorriso numa ausência repetida

Uma ausência que evapora

Enquanto marchando ao teu lado

Ao teu lado sem que tu saibas

Que através de ti, o caminho encontro.

 

Devagar, entregar-te-ei minha saudade

Entregar-te-ei a minha física

Entregar-te-ei os meus sorrisos

Donde ressalta da rosa a pétala

Os aromas que exalam daquele botão

Perfumando-te, eternizando-te

Na macieza perene do teu carinho

E na nervura deste verso que te dedico.

 

 

Oslo, 5 de Julho 2016

Domingos Barbosa da Silva

 

 

Ecos nostálgicos

 

 Abro de par em par a porta da noite

 Ao convite de madrugadas tantas

 Para escutar o som duma ocarina

 Que chega encamisada em melodia.

 

 Abro par em par a porta da noite

 Numa enorme vontade de ficar só

 Dentro de silêncio que percorre rugas

 Traçando na cara esboço dum sorriso.

 

 No largo da terra onde me conjugo

 À sombra duma noite esbelta e longa

 Escorrem memórias de um tempo

 E sons da ocarina feita com as mãos.

 

 A noite brinda-me com um sorriso

 Fervilhando o sangue nas têmporas

 O sangue com que brindo a vida

 A vida, com a erosão feita na testa.

 

 Noruega, aos 09 Maio de 2005

 

 

Filho-vulcão

            À gente de Chã das Caldeiras

 

Tu, que na via dolorosa da existência

A vida cruzou o fadado caminho,

Tu, que com o punho em riste cantas,

O orgulho daquela encruzilhada!

 

Tu, sobre quem tombou a infortuna, 

A tua íntima sorte, nada há que a importuna.

No fundo do teu pensar, se afunda a chaga

Nos teus olhos, há esperança que não se apaga.

 

Oh, alma viva das paixões da vida

Tu, que na grinalda constante da dor

Sob protesto calado, a lentos passos

Foste afastado do ninho da Saudade!

 

Oh, se o não-ser equivale ao nada

No teu coração escorrega a rubra lava 

Esconde o vulcão-pai teu sofrimento

No dantesco centro inquieto da dor.

 

Aqui de longe, com um peito asfixiado 

Nesta baixa, um coração amigo, entristecido  

Fica vendo e pensando, após tudo perdido

Como quem quebra o objecto mais estimado.

 

Colocando as suas mãos nas tuas mãos, quer 

Afastar o vulto sobre sombrias herdades, ver

Somente os cachos avultosos das suas uvas

E os pássaros saltitando de galho em galho,

 

Esconjura todas as faíscas e pedras de lumes 

Todo o ardente calor da incandescente lava,

Que racha a terra como se fosse água diluvial, 

Todos esses males, a tua dor não apagam,

 

Envolta na Fé imaculada no Altíssimo, 

Afasta para longe, o trilho acidentado,

Grita para que se ressoa o seu bramido,

Da dor encarcerado dentro do seu peito.

 

Noruega, 25.11.14  

 

 

Nós dois, apenas

 

A noite esbelta me olhou desconfiada

Como que na mente tivesse um pensar

Esculpindo em pensamento asas

Feitas de plumas de asas do teu olhar.

 

Imaginei-me sobre um tapete a voar

Dando voltas aos teus sorrisos amigos

Eu, a imaginar, esse teu preto olhar

Essas uvas que tanto mexem comigo.

 

Inventei uma molho de pensamento

Enquanto a noite me espreitava

No meu olhar fixo no firmamento.

 

Então, num abraço de nós dois, apenas,

Colhemos um pedaço desse firmamento

Num suave tateio de mãos carinhosas.

  

 

Na sombra dun strela

 

Co nha odjo fincado na bó

N’sinti bo mon tocâ nha dor

Di câ podê ser di bô.

 

Bô entrâ dento nha alma

Bô rossâ fio di nha corasan

E saí melodia di ser di bó.

 

Dichan discansâ sossegado

Dichan sunhâ co speransa

Dichan durmi na bo sombra.

 

N’crê  bibê na bo corasan

Fincado nun bejo sen fim

Pâ nu disquisê di tempo.

 

Tâ qui bo atchan tâ discansâ

Na sombra  dun strêla

Ê bô sombra qui stâ sombram.

 

 

Ilha di nha sonho

 

Longe de bô n’nacê pam vivê

Num lonjura que câ tem fim

K’ ês vivência m’nacê pa’m sonhâ 

De sempre andâ c’ bô na nha pêto.

Nha distino ê pâ assim sonhâ

Kim n’tembo pregado na pêto

Kmô sinal dum grande amor

Kmô um flor fincado na coraçam.

M’tem um ramo de flor pâ bô

K’mô prova de recordaçam

Bu strêla ê luz de confiança

Ki dam txabi de bu coraçam.

Ku ês txabe m’tabri bu céu

N’tachâ um monte felicidade

N’ta discobri segredo de b’amor

Ki ê igual quel quim sonhâ.

  

 

Outras poesias!

 

1 Saudades da minha infância
2 Dúvida
3 Um presente
4 Nas asas do meu pensar
5 Ecos nostálgicos
6 Alvito ao longe
7 Tarefas caseiras a Nanda
8 Alento
9 Gritos duma estátua
10 A cortina da lonjura para Vavá
11 Hino de amor
12 Cabo Verde pequenino
13 Não posso ser...
14 Foi ele...
15 Sou marinheiro
16 Poeiras
17 Amor a Cabo Verde
18 O cinco de Julho, 2009
19 Uma lembrança  (A Renato Cardoso, 20 anos depois)
20 Indiferença (A Renato Cardoso, post mortem)
a A Odisseia Crioula
 b Correio Eletrónico:  dombsilv@online.no

 

Outras Poesias  (Em Crioulo)

 

1 Bem obi li
2 Amizade
3 N'crê ser bo poesia
4 Até qui enfin!
5 Na sombra dun strela
6 Prisionêra
7 Nota di nha violan
8 Segredo
9 Ilha di nhâ sonho
10 Um regresso triste
 c ( Para Consultas e Pedidos de Obras do Autor ).  Correio Eletrónico:   dombsilv@online.no

 

 

 

Na dispidida

 

                        Pâ nhôs tudo ki bem! 

N’stâ t’odjâ uns carinhos na altura

Nuvens di baxo, co céu di cima

Cmó nha pensamento na tontura

Tâ imitâ som suave d’um rima.

 

Má pobre di nós qui fica

Na meio de nevi tâ pensa

Na quês irmuns qui bâ 

Pâ lonji, lonji di nós odjâr.

 

Nós, du fikâ tâ obi ês tâ papi

C’mó um morna bonito e sabi

Cantado na nota contente 

 

Qui ta trâ tudo dor di alma

Di quem qui tâ sonhâ sabe

Dum curto visita de nós gente!

  

Oslo, 19.12.05

 Domingos Barbosa da Silva

  

Na dispidida II

 

Lua pagâ na céu di rapente

Kanto tudo nhôs fra tchau

De rapente, céu ficâ triste

Deus segredan: min stâ quês.

 

Má nha corasaun sinti calado

Na sombra de nós amizade. 

Má agrabo abstrato de sodade

Ficâ tâ batê forte dento di mi

C’mó cantiga di tchintchirote,

El fazê nha pêto birâ contente

N’odja nhôs alma ta arri co mi

Suma Mona Lisa de olho santo.

 

Só sim n’tâ festejâ nhôs presença 

Sim n’ta sinti nhôs abraço na ausência

Só sim n’ta odjâ nhôs di perto

Enquanto ôto arguém tâ dâ nhôs joia

Min tâ dâ es verso que tâ durâ pâ sempre.

 

 

Ana, Domingos, Maryann, Mere,

Tumeu, cô José e Olivia suma um bela

Cendido na pó de nós bandera

De amizade qui Deus danu

Pâ du construi um ponto de sodade.

 

Oji n’entrâ na Greja pan razo

N’subi altar que dúvida construí

N’sinti arguém chaputin na costa 

Quel arguém era nhôs tudo sete

Quê um númro de origen prefeto.

 

Ó Nhordés, min tâ crê na Nhô

Má Nhô purdan, se dúvida qui n’tem

Tâ biran piquinino c’mó pecador pobre!

Má,  n’crê assi pan morré na luz

Ó morré pan bibê junto di Nhô.

 

Ó Greja quêto dento di mi

Pô na mi bô feison divina

Pan podê sinti tchêro de amizade

Tudo bês qui n’pensâ na nhâs

Irmuns qui tâ bibê n’ôto rubera.

 

20.12.05

 

 

 

Despedida III

                      Para Jose, Mere, Olivia, Domingos, Ana, Tumeu e Maryann

 

A nota festiva do nosso rebuliço

Na hora de despedida murchou

Deixando atrás um silêncio bulício

A tocar na corda que a saudade deixou.

 

Naquela hora, de minutos fugitivos

Ergui uma reza que jamais alguém disse,

Com lágrimas a pingar no engasgo fustigo,

Baixei o semblante para que ninguém o visse.

 

Naquela fria hora, caminho liso, transpus, 

Como um menino sob comando padrasto,

A deixar a festa, a deixar a porta, sem gosto

A transpor a bioquímica dos nossos óbolos

Mas, bendito seja, o vosso alegre alvoroço

Minha emoção futura, que hoje vos conto.

 

(depois dos telefones da vossa chegada)

 

 

(Como) Natal (é para mim)

Hoje é Natal – a noite primeira 

Em que o homem vê num grão de areia

O Filho, que o resgata da cegueira

E abranda, em sua glória, todos à sua beira.

 

Hoje creio que amanhã venceremos

Que debaixo dum céu claro e fundo

O Espirito de Alto paire na paz no mundo

Reflectindo a verdade que no céu vemos.

 

Hoje, do contorno dum amplo firmamento,

Chega a Estrela – de todas a mais brilhante

Para habitar a imensa catedral no meu peito

Onde, em nome d’amor, sai aleluia iminente.

 

Natal é serenata, é alegria, é aleluia virginal

É irradiação intensa de lâmpadas suspensas

Dentro de mim - no tecto da grande catedral

Iluminando o interior cristalino das crenças.

 

Natal, é a ponte forte - fonte de união

Meu único Norte de referência cósmica

Que me faz pregar o olhar no azul d’amplidão 

Meu único clarão nesta vida telúrica.

 

Natal de 2005

 

Emigrante em férias

 O tempo sumiu-se num foguetear

Como negrejantes cúmulos de ilusões

Galgando sonhos nublados e fugazes

Sobre um sentir tão belo, a fervilhar.

 

Estava passando bem junto à estrada 

Que a infância espezinhou aos bocados

Tão depressa uma lembrança magoada

Emergiu-lhe, tão belo sentir, lá dos astros.

 

Lembranças lhe arrancaram da garganta

Um fio de soluços - que calado engoliu

Despejando do peito um rosário de pranto.

 

Do fundo do crânio, a lembrança congelada,

Com as árvores no estado de interjeição, sumiu 

Para apagar dentro de si a flama do peito.

Oslo, 28.12.05

 

Dúvida

 

Eu ando atrelado a uma grande dúvida

Trancado numa escuridão aterradora, 

O abismal ergástulo que me estraga a vida,

Pensando se há ou não uma Luz libertadora.

Mas, dentro da escuridão cavernosa insisto 

Na corda melódica uma harmonia anímica

E deixo vibrar no éter o gemido dum grito

Num gesto de me aliviar duma dor fatídica.

 

Embora a lua meu pensamento aclare

A noite cavernosa de estrelas fulmíneas

Insistem minhas trevas atoladas na areia

Da dúvida, numa cabeça louca, que equipare

 A luz que desfalece enquanto a noite cresce 

Uma algema, que morde o âmago e reaparece.

22.01.06

 

Existênsia

 

Si ontem bô amparan

Oji ês amparo ê certeza

Oji ê luz, na bô ragáaz

Manhâ ês suma speransa 

Na nha pêto di criansa 

Tâ quim cantâ ês poesia

C’mó sinal di cortisia,

Pâ tudo ês bô grandeza

Scrito na cada fódja caído

Tchan morâ na bó, existênsia.

 

Si un dia ‘n apartâ di bô amor

Si un dia ‘n negabo bo ragáz

Nês ninho qui bô dan

Dâ coragi pâ quem qui fica

Tâ sofrê nês mundo di dór. 

 

 

Amizade

 

‘N ta amabo cô tanto ardor

Pamódi tanto arguén sem sorte

Stâ morré tudo dia, cô tanto dor

Qui na qu’el dia qui tchigâ morte

Ês câ tem más qui morré, amor!

 

Por isso, ‘n crê pâ bô ser mi

Na hora qu’in stâ ausente

Pâ bô arri dispatchado cô nhâs gente

Suma tudo quê di bó  ê di mê.

Pâ ‘n podê sempre bendizê bô nome.

 

Min crê ser bó na bô ausência

Min crê ser amigo de bôs amigo

Um poco más qui propi bó 

Cô amor, cô carinho, cô sodade...

Pam morrê de sodade, de amor...

 

Bó ê nha padaz de estimasaun 

Qu’in tâ crê codjê tudo padacim

Se um dia destino quebrado

Fitchado na tamanho de nha braço

Qui nha imaguinasaun tâ daun.

 

 

Teu ânimo 

                   Para Prima Letxa

Imagina um alegre pôr-do-sol

Sentada no ramo duma mangueira

Respirando o perfume dum girassol

Com saudade interior da tua ladeira.

 

Pega então do teu pano de bordado

Pinta aquele pôr-do-sol, exacto

Vira os teus olhos para outro lado

Para as estrelas do teu firmamento.

 

Imagina um sonho cor de rosa

Igual ao lar que construíste, orgulhosa

Tal-e-qual aquele pôr-do-sol.

 

Imagina, ainda, o bordado duma rosa 

Que nasceu dos teus afagos, misteriosa

Regada com as lágrimas do teu Sol.

Espanha, 08.11.05

 

Alento

         Para Prima Letxa

 

Quando o ânimo chega devagar

E entra teus olhos de cansaço

Vejo dentro do teu intenso olhar

A dor estendida nos teus braços.

 

Coração de prima, tão moça e bela,

Tão profundo ferido pelo espinho

Que a doce vida às vezes nos revela

Põe coragem à vida  no teu caminho.

 

Eu sei da tua história e tuas correrias

Nos pedregulhos corredores de amor

E dos segredos que te causam a dor.

 

 

 

Hoje, para revelar a tua oculta alegria,

 

Canta uma canção que afugenta a dor

 

Chora, com sorriso, a dor do teu amor!

 

 

 

Espanha, 09.11.05

 

DOMINGOS BARBOSA DA SILVA

 

 

Sorriso da alma

 

Vou tentar sonhar um pôr-do-sol, logo,

Digamos, do cume do Pico do Fogo,

Digamos também, no embalo duma serenata,

Ainda, nos valores que a alma me concerta.

 

Abraço daí com amor o mundo, com efeito,

E do centro do longo abraço, sobre o peito,

Chega o cheiro estonteante de uvas...

Do pedestal do Gigante, que, às vezes, uiva...

 

Neste sonhar gostaria que sentisse abraçado

Que do centro da serenata e do longo abraço

Se brota um ser que se sente apertado

Uma benesse estonteante derivada do enlaço.

 

No embalo da serenata mando um beijo

Que alcança todos os corações em chama

Um beijo que fica tatuado na ígnea flama

Do fio da diáfana água dum lindo riacho.

 

Do riacho ecoa uma melodia uniforme

Trazida da origem natal do encosto

Das nuvens e dos mares que me dão alento

Que mata no meu peito a minha fome.

 

Deste peito salta uma melodia, em salmo

Com o som do cantos das aves, convulso

No barulho de águas passantes, como o pulso

Do sereno quebrar de águas, muito calmo.

 

Esta melodia sorridente, dum errante rio

É um beijo no poente doirado, no fim da serra

Uma memória indelével, da minha terra

Posto no riacho roncando, com delírio.

 

O riacho com a sua melodia corrente,

É segregação de lágrimas de transeuntes

Que não estanca a cede dos mares

Nem saudades do sorriso de mulheres.

 

Domingos Barbosa da Silva

Espanha, 20.11.05

 

 

 

Saudades da minha infância

 

Nos caminhos ínvios onde a amizade pisa

Ouço o redobro de orquestras dos grilos,

Que afasta o medo que às vez me dá preguiça,

Escondido nas folhas soltas, arrepiando pêlos.

 

Sol alto, a terra escaldante, pés no chão,

Uma constante vibrar de cordas indefinidas

Que acaricia o fundo inorgânico d’alma

Que entre pedras ou matagal roçam a emoção

 

Os pés, cansados, a pisar o solo infecundo

Triste de chorar magmas nos ninhos

Carrego hoje a cruz sobre minhas dores

Acordam as saudades pelos caminhos.

 

Com uma flama oriunda acesa no peito

O eco das nossas vozes nas ribeiras

Actuando como ponta da faca sobre lajes

Cortando nossos fundos orgânicos às raízes.

 

Braços cansados arrancando ervas

A orquestra dos grilos, emocionante

Caminhos que erguem gigantes espectros

Sons metálicos e incómodos de enxadas

 

Ao largo o sussurro do vento nos galhos

Dum tamarindo, cujos frutos suculentos

Quantas vezes me trazem arrepio à boca

Nos seus amplos e frondosos agasalhos.

 

 

 

Gritos duma estátua

 

Gritos flácidos saltam do fundo

Duma estátua espiando as estrelas

Que iluminam os vultos, olhando

Em silêncio as nossas tristezas.

 

Soberana voz, soberano grito

Que sai das mandíbulas inertes

Da estátua que perdeu o tacto

De sentir o reflexo do sol poente.

 

Divino som que sai duma ocarina

Profana, oca, duma peanha dura

Da ultrafatalidade duma aventura

 

Gemidos, puro e de cor vermelha

Crepitando em ritmos duma fagulha. 

Pulsando como mensagem divina.

 

Domingos Barbosa da Silva

Novembro de 2005

 

 

Parabéns Cabo Verde

 

Por que te quero perto de mim

Neguei o mundo pelo teu olhar

Combati a luta para te conquistar

Com cada grito que dei por ti.

 

Com carga de emoção que perdura

Escrevo teu nome nas nuas rochas

Gravando a colorido nas pedras tuas

O sangue rubro da minha candura.

 

Do sonho que vivi neste espaço

Dei um mais distanciado passo

Para ti alcançar, para ti beijar.

 

Longe dos píncaros da história,

Dos sagrados templos da memória

Meu coração te invoca, deste altar.

 

Domingos Barbosa da Silva

Noruega, 5 de Julho de 2005

 

 

 

 

 

Vinte e cinco prateado

 

 

Vinte e cinco anos misturando

Emoções, pisar pela ingrata dor

Que coisas e mágoas deste mundo

Sobrepõem as chagas de amor.

 

Na distância – ha um respiro de odor

Que espalha pelos cantos invisíveis

O respiro dum ar chamuscado de dor

Nas substancias tépidas e dissolúveis .

 

O sol da esperança - espreitando laços

Queima e morde os vinte e cinco

No terreno alheiro com seus cachos

E salta para o lado dos nossos afincos.

 

Com a face macerada pela emigração

Longe do regaço da nossa nação.

 

 

 

 

 

 

Bó ê cadiado qui ficham

Na tamanho di bó braço

Mi ê sombra di bô passado

Longe di nôte qui dja passâ

 

 

Um regresso triste

 

Um bês um semeador, um sunhador

Kria djobê um bida midjó na strangêro

El tâ andába suma um pomba roncador

Pamôdi parcêba manêra de ranjâ dinhêro.

 

Má pâ Sul êl tinha qui bâ pa tropa 

E el bá tâ tchorâ - cô dor na corason

Êl dixâ quel sonho de emigrâ pâ Europa

El lebâ um sacon de sodadi na mon.

 

Irmaun, primo, amigo, nativo, morrê tudo

Um dia el voltâ pâ terra cô recordason

E na cara el trazê tcheu ruga di perdison.

 

Má kanto êl voltâ cô cara tudo curtido

Ê câ atchâ quel possibilidade di kêl sonho

Nem sê namorada staba na sê caminho.

 

Sonho dum exilado

 

‘N crê regressâ pâ terra ‘npurrado na onda

Na onda di bidjice – num bote miudinho

Tâ dislizâ na Alcatraz – devagarinho

Suma Ernestina de costela caracunda.

 

Ó terra que recebém cô braço aberto

Dichan cantâ nha pátria ês dor peregrina,

Antis del fazem firida na nha pêto,

Ês cantiga  de sodade, na som de morna.

 

Mi ‘nca tâ disquidê di bó, terra madrasta

Suma ‘n câ disquicê pedra di nha ninho

Dundi ‘n trazêba um monte de carinho.

 

Colado na pêto ‘n trazêba um imagem santa

Di qu’el sonho que um dia era comum

Quel sonho de voltâ, di tudo nós irmum.

 

 

 

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