Branco de nome só
À tia Hirondina Zau (post mortem)
Dizem que sou branco.
Mas branco… é nome de giz.
É parede antes do poema.
É silêncio que ainda não escolheu palavras.
Sou português.
Mas será que isso tem cor?
Será que o fado é mais puro
se nascer de garganta sem mistura?
Será que a alma se mede
em tonalidade de pele?
Na bandeira – não há cor de gente.
Só verde esperança,
e vermelho de quem caiu de pé.
Mas nos corredores do poder,
há portas que se abrem mais depressa
pra certos tons.
Portas que se fecham com “talvez”,
quando o rosto não diz “sim senhor”.
E alguém me pergunta:
“Se os nórdicos são mais brancos,
são mais justos?
Mais europeus?
Mais donos do que é ser daqui?”
Mas a minha tia Hirondina dizia:
“O valor não nasce na pele.
Nasce na forma como acolhes
sem medir o tom do outro.”
E eu vi.
Vi gente a ser empurrada pra fora
de uma pátria que sempre foi sua.
Vi “tu não és daqui”
dizer mais do que o passaporte.
Mas a pátria,
ah, a pátria é mais do que um documento.
É o cheiro da cozinha cruzada,
a canção onde batuque encontra guitarra,
a dança dos avós nos pés dos netos.
O racismo…
não vive só nos gritos das ruas escondidas.
Vive no silêncio das reuniões.
Na dúvida nos olhos.
Na escola onde se espera menos.
No emprego onde se exige mais.
E por isso,
eu escrevo.
Não só por revolta,
mas por memória.
Por justiça.
Por um país que saiba que a cor da pele
não decide pertença.
Portugal não é uma nota só.
É harmonia feita de vozes múltiplas.
É mais inteiro
quanto mais diverso se reconhecer.
E se sou branco…
sou branco de nome só.
Porque a alma,
essa – tem todas as cores.
Teu Olhar
In memoriam de Alberto Brandão I
Tanto briguei comigo mesmo
Por pouco ter dedicado tempo
Para olhar fundo em teu olhar,
Carregado de bondade infinita,
Que em meu próprio ombro chorei.
Hoje, estou olhando de longe,
De muito longe, no abismo do tempo,
Para si que está diante de mim,
Pertinho, que se a mão alongasse,
Sua face tocaria, trémulo e triste.
A luz da sua bondade me guia,
Quando lágrimas de dor me atingem,
De leve, sem aviso, o peito dilacerado,
Lembrando toda a sua beneficência,
Inclino-me para lhe prestar homenagem.[1]
Agradecimento
In memoriam de Alberto Brandão – II
Em memória do grande amigo, Brandão,
Cuja vida foi um farol, uma inspiração.
Com 95 anos de sabedoria e amor,
Apoiou-me nos estudos, com imenso fervor.
Alberto, teu nome ressoa em meu coração,
Compadre querido, tua vida foi uma canção.
Nos dias de lutas, foste meu guia fiel,
Semeando esperança, tornando meus sonhos um céu.
Em cada aula, em cada lição,
Sentia tua presença, tua dedicação.
Com tua generosidade, abriste-me portas,
Mostrando que o conhecimento é uma das maiores fortunas.
Agora que partiste para a eternidade,
Deixaste um legado de imensa saudade.
Tua memória vive em cada vitória,
Em cada página virada, em cada história.
Descansa em paz, amigo e mentor,
Teu espírito brilha com eterno fulgor.
Alberto Brandão, serás sempre lembrado,
Como o grande amigo que foi meu aliado.[2]
Meu guia
In memoriam de Alberto Brandão III
No compasso dos teus passos, encontrei a direção,
Compadre e amigo, foste farol na escuridão.
Com 95 anos de sabedoria e bondade,
Apoiaste-me nos estudos com imensa generosidade.
Nos dias difíceis, foste meu porto seguro,
Semeando na minha vida um futuro mais puro.
Cada lição aprendida, cada sonho cultivado,
Trazia em si o carinho de um apoio sagrado.
Agora que partiste, deixaste um vazio,
Mas teu legado vive em cada desafio.
Nas lembranças doces, em cada conquista,
Estarás sempre presente, numa saudade mista.
Grande amigo, tua amizade foi luz e calor,
Eternamente grato, guardo-te com fervor.
Descansa em paz, no eterno jardim,
Teu espírito vive em cada vitória em mim.[3]
A dor do parto do arquipélago
Aos emigrantes – versos das ilhas
Filho meu, eu te gerei no monturo da dor
Quando a luz de uma lamparina dançava na treva
Mas tu, triste desde a nascença, olhos no alto
Foste um navio com a proa de aço amalgamado
Forjado na essência de saudade e de ausência.
Mamãe terra, daqui dum ponto fixo na diáspora
Os agravos são muitos e nas tuas pupilas mortas
Vejo o reflexo antigo dos círios a dançar na treva,
O incondicional amor que em mim depositaste.
Mas há quem procura desviar de mim tua mirada.
Audácia filho, presume-se que eu para ti não nasci
Mas tu andas sempre a procurar-me na noite
Por estranhos trilhos, cheios de pedregulhos
Dentro de mim ando a clamar e a chamar por ti
Mas há quem procura desviar de mim tua mirada.
Só quero agradecer-te e dizer-te de longe, mãe-Terra
Obrigado, beijar a tua face inerte, pálida e triste
Humilde face macerada agora desalentada
Vendo os teus filhos no cais da partida
Sem ao menos poder beijar-te e abraçar-te.
Filho, há longos espinhos aguçados nesta praça
Rasgando pouco a pouco meus nervos afetivos.
Deixa-me também beijar-te lá do cais de partida
As tuas mãos flageladas pelo sol da saudade
E por quem ainda procura desviar a tua chegada.
Mãe-Terra, quanta ausência mora nessa ineficiente gestão?
Quantas lágrimas de dor se consome e arde meu coração?
Do bonançoso flanco de teu corpo majestoso e inerte
Contemplo-te, admirado, mãe-Terra, com olhos marejados
Com um sentir puro de filho sempre a clamar por ti.[1]
[1] Espanha, 3 de agosto de 2022. A terra-mãe chama os seus filhos emigrantes e chora por os ver partir sem pisar o solo natal por causa da má gestão dos transportes públicos. Não existe plano B nem C. Há má gestão dos clientes. Uma vergonha nacional. Estes versos foram inspirados pela poesia “vigília” de Helena Kolody.
Quo Vadis, Cabo Verde?
A Busca pelo Rumo
Em cada ilha, um eco que ressoa,
Nos debates acesos, a voz se entoa.
Quo vadis? – a pergunta paira no ar,
Enquanto o horizonte espera o caminhar.
Barcos persistentes desafiam o mar,
Unindo destinos que teimam em falhar.
Entre os contratempos que o dia consome,
O utente espera por mais do que um nome.
Rios de esperança, em prece a correr,
Buscam no oceano o modo de renascer.
Quem entende os rios, respeita o imenso mar,
Mas falta, no debate, o saber navegar.
A força da gente, às vezes esquecida,
Clama por ser, enfim, acolhida.
Na arena onde a palavra dita se mistura,
Que o diálogo recupere a sua tessitura.
Promessas ao vento, caminhos incertos,
A responsabilidade em gestos dispersos.
Dói a distância entre o dito e a ação,
Enquanto as ilhas pedem renovação.
Quisera que os rostos buscassem a razão,
Fazendo da união a real missão.
Que os enlaces do transporte encontrem saída,
E uma nova visão floresça na vida.
Por trás das palavras, a esperança brilha,
No sonho de quem refaz a trilha.
Cabo Verde, no brilho do povo, reluz:
É na busca serena que a vida se conduz.[1]
Um desafio à mobilidade
Oh, Cabo Verde, berço em mar profundo,
Teus rios fluem, buscando um novo mundo.
Quo vadis? - Gritam as vozes aflitas,
Nos corredores do poder, as verdades são malditas.
Entre as ilhas, o transporte é desafio,
A razão se esconde, no eco do desprezo e do vazio.
Os utentes clamam, com dor em sua jornada,
Enquanto os partidos em altercações se enredam.
Nas câmaras, debate é guerra sem fim,
Promessas vazias, um jogo tão subtil.
Os destinos se perdem, lançados ao mar,
Quem conhece os rios, a rota pode traçar.
Mas o que se vê é a sombra da indecisão,
A força da sociedade sem voz na decisão.
Negligenciada, implora pela verdade,
Entre os lamentos, encontro a vontade.
Desapontam os discursos, tão frios, tão vazios,
Falta de caráter nos números e desafios.
Mais que palavras, precisamos de ação,
O futuro das ilhas clama por união.
Oh, transportes, arte da interligação,
Que a política não sangre a esperança da nação.
Que nos debates, a coragem venha à tona,
E que cada barco, ao seu destino, retoma.
Nas ondas do mar, que o diálogo flua,
E que a verdade seja sempre a tua.
Assim, Cabo Verde, em pé de igualdade,
Transformar os debates em voz de serenidade.[2]
Ilhas que se contemplam de longe
Ilhas irmãs, separadas por mar,
onde o tempo passa, mas custa a andar.
Vê-se a costa, sente-se o cheiro,
mas chegar lá… só num sonho inteiro.
Barcos que falham, voos que não vêm,
e o povo espera, como sempre, ninguém.
Doente ou estudante, pescador ou mãe,
todos presos num destino que pouco convém.
Há quem nasça em Santo Antão,
mas morra sem ver Brava ou Fogo ao chão.
Cada ilha é um mundo fechado a cadeado,
por políticas lentas e um Estado calado.
Mobilidade? Palavra bonita no papel,
mas sem navio, sem plano, sem céu.
Promessas lançadas com voz de ocasião,
morrem nas ondas da desatenção.
E nós? Nós somos cabo-verdianos,
de todas as ilhas, de todos os planos.
Queremos pontes – ainda que de mar –
para que nenhum irmão fique por visitar.
Que esta poesia seja grito e tambor,
ecoando na praia, no monte, no amor.
Porque país sem ligação, sem união,
é só arquipélago, não é nação.
Brincar com o fogo
Aos meus amigos na diáspora cabo-verdiana.
Ilusões dispersas pelas ruas do mundo
Como grãos de areias das nossas praias
Correios surdos das nossas saudades
Que chegam na espuma branca das ondas
E ficam sepultadas no anonimato das areias.
Ontem com esperanças olhava tudo ao meu redor
Construindo, pouco a pouco, pedra a pedra, ilha a ilha
A ponte simbólica de união Cabo Verde-diáspora
Hoje prevejo derrotas em tudo que move ao derredor:
Nas nuvens lá no alto, nas faces petrificadas dos políticos...
Nas classes que nos governam já não mais guardo
Esperanças prometidas nas suas poesias, e tudo mais.
Já não espero coisa nenhuma e nada me espera
Exceto venda nos olhos, mordaça, prisão, morte
Pois, graduados tornam-se ministros sem nada saber...
O desespero força-me a marchar através do fogo
Pois salvar o nome da liberdade urge um outro esforço
Titânico como outra luta contra braços erguidos
Para nos impedir o caminho: policias à frente de hospitais,
Falta de transportes para nos fazer à casa chegar...
Juntando tudo à pesada, morosa e desleal burocracia.
Zumbaias da Política
Nos palanques grandiosos, os discursos a brilhar,
Brilham as zumbaias com seu tom a encantar.
“Ó que grande líder!”, ecoa o verso lisonjeiro,
Na dança das palavras, o jogo é certeiro.
Sorrisos bem largos, abraços sem fim,
As promessas voam como nuvens de marfim.
“Teu olhar é um farol, tua voz uma canção,
Faz sair da sombra até a mais dura prisão.”
Mas sob o brilho falso, a verdade se esconde,
Regalias se tecem em promessas que rondem.
É festa na praça, mas a alma a pagar,
Na política do aplauso, quem se atreve a pensar?
E se a bajulação tece tramas subtis,
Os interesses ocultos dançam em perfis.
Como flores que murcham sob o sol da razão,
As zumbaias se vão, mas deixa a desilusão.
Que a arte do dirigir não se perca em delírios,
Que os ecos da lisonja não sejam meros fios.
Que a política se vista em verdades profundas,
E as zumbaias se calem, para que a esperança infunda.
Na dança da vida, que a voz seja fiel,
A sabedoria brilha, como um Sol sem véu.
Assim, que as zumbaias se transformem em ação,
E traga a soberania um futuro em união.[3]
[1] Oslo, 20 de setembro de 2024.
[2] Oslo, 20 de setembro de 2024.
[3] Oslo, 18.10.2024.
[1] Oslo, 12.6.2024.
[2] Oslo, 12.6.2024.
[3] Oslo, 12.6.2024.
Do funco ao sobrado
Com o sal sublime
Suspenso
No pingo de lágrimas,
Carregado de dor,
Dor tão sublime e pura
Repleto de poeira das flores,
Esses globos cor-de-ouro
Gotejando face abaixo.
Passeando por trilhos anosos
Com ar de poeta sonso
Enquanto a pele de rugas enche
Floresce, murcha e desfolha.
Gira a terra indolentemente
Eu, gravitando, com as primaveras
Pactuado com o astro-rei
Enquanto, sorrindo, criava rimas veras
Rimas autênticas, lá dos funcos
Me estenderam as mãos
Como se fosse um convite vero
Ao sobrado, com ar sorridente.
Nas tardes vagarosas do tempo
Olhava para o brilho das lamparinas
Saltitando do interior das moradas
E, eu, tropeçava, nas flores do cardo.
As flores agrestes dos cardos
Zangadas, com o empurrão inocente
Recompunham-se, sacudindo o embate
Endireitando-se, de jeito afanoso.
O cata-vento com acenos me sufocava
E convites evasivos
Que geravam sonhos repetidos
Simplesmente insuportáveis.
Teci as cortinas do meu sobrado
Compradas com o veludo da minha carne
Com sorrisos e com flores
Com que enfeitei a aba cor-de-ouro.
Sou um eufórico tecelão
Tecendo fundas fundas
Com fibras da minha derma
Com mil dedos de vontades.
Sou um tecelão de versos
Feitos com nervos do meu ser
Para eternizar uns instantes
Na efemeridade da vida.
De quando em quando escapava
Para as margens das ribeiras
E sem nada fazer, vagueava
Até chegarem as ameaças lá da casa.
Perscrutava os montes imponentes
Que espreitavam as estrelas
As estrelas
Que os homens não conseguem ver.
O Montrabaz
Olhando o de NhaSantana,
Com ar de superioridade
Abraça o de Laranjeira.
Esses cones enormes, quais gigantes
Altivos, parecem mamas disformes da ilha
Com que a terra nutre com o nada seus filhos
Na carestia cíclica dos tempos.
Os outros montes, filhos da Mãe-ilha
O Garça, o SantaBarbara, o Barro, o Preto
Gotejam no ventre a magma solidificada
Da paciência que endurece os filhos da ilha.
Logo ao pé de Montrabaz
A pequena e modesta aldeia
Fustigada pela soalheira
Mal acabar de o sol nascer.
No fundo da aldeia, perto do ocaso
Numa modesta casinha-buraca
Repete-se as rotinas diárias
Até chegar o pôr-do-sol.
O sol volta e saúda de novo,
Rotineiramente, os aldeões
Convidando-os ao labor
Ao labor sem recompensa.
Ao ponto de revolta de um aldeão,
Um tecelão de versos ledos e tristes,
Convidara ao sol luzente
A um encontro ao pé do monte.
Ele enviou seus raios refulgentes
Metendo medo a um tecelão pecador
- Perguntou ao chegar onde estava a catchupa
- Não há milho astro divino!
Com xixi a espreitar das calças
O sol desviou seus raios para o lado da noite
A lua curvada apontou o rosto
Interrompendo o diálogo.
Com o coração a saltitar pela boca
Cortando as interrogações postas no diálogo
Entre a gazela islenha e o astro divino
A lua interpôs-se reverentemente.
Reverentemente a lua interpôs-se
Entre mim e o astro-rei
Eclipsando o brilho perturbador
E até a eternidade ficamos amigos.
O sol, o milagre da vida, segurando-me o braço
Disse: vamos nós os dois brilhar
Cada um da sua maneira
Cada um a seu jeito peculiar.
Debandei-me exausto pela conversa
Fui-me entregar à faina costumeira
Da horticultura sem pecúlio, da poesia
Com que reguei estes versos.
Eu, o artesão, o destino me expulsou
E fui entupir a caserna da expatriação
E no meu pequeno mundo caseiro
Sem os raiozinhos constantes do sol,
O fabricante da tónica dos ossos,
Donde daria todo o mundo
As fortunas incansavelmente havidas
Para um dia à terra regressar.
Para ver os montes e florestas desérticas
Despidos de vida, ainda prostrados
Eternamente, espiando os mares
E seus filhos, em eterna reverência.
Incertezas ocorrentes insinuavam:
Questionava sempre; se era ou não branco
O cavalo branco de Napoleão.
Para mim, não interessava a cinza do passado.
Eu sou uma das gazelas humanas
Que mal abandonara a casca
Atracara-se à enxada enferrujada
Com a quilha enterrada na terra.
Em cortesia aos funcos, imortalizo-os
Dobrado sobre as páginas da vida
Estanco as estrofes no túmulo dos livros.
E as lágrimas secaram na rotineira luta.
Oslo, 11.02.2017
Domingos Barbosa da Silva
5 de Julho (2017)
A Cabo Verde
Tua Liberdade
Liberdade envolta de responsabilidade
Tua sinfonia da vida
O motivo do nosso destino.
Instalaste dentro de nós
Um quebrador de grilhões
Que habita em não sei onde
Nos corredores da nossa mente.
Entre as moléculas e o ser
Há esse apetite rendoso
Que saltita de poio em poio
Em notas melódicas e sinfónicas.
Este dia é tua sinfonia
Este dia é o eco dos teus gritos
Que despertaram dentro de ti
Outros gritos em ti dormentes.
Semeias esta nossa amada pátria
No teu chão de liberdade
Com as tuas asas abertas sobre nós
Sentimos o triunfo de um espírito livre.
Saltitando de pavilhões nocturnos
Para os andaimes do instante
Com tuas asas libertadoras
Nos situas nas brisas fúlgidas do tempo.
Sob golpes que o tempo remessa
Persiste o amor em ti plantado
Perto ou longe se iguala o amor
Só as garras da morte nos apartam.
Oslo, 5 de Julho 2017
Domingos Barbosa da Silva
Uma incrível queda
Surgem do beco com a lança
Com a língua suja de pecado
Espreitando maviosidades
Nas horas agoirentas do dia.
De um pedestal quedou vates
Numa triste baixeza, abalável atitude
Só para dar um coice a um idiota
Que do que faz nada percebe.
Ai que grotesca linguagem do vate
Que não cabe na balança judiciária
Que fere mais que a lança gigante
Que o soldado Longines empunha.
Chegam os Le Pens e os Trumps
Movendo entre louças de armazéns
Com braços maquinais, fogos na língua
Espandongando as paixões da vida.
Erigem gigantescos muros
Sobre os muros a polícia secreta
Na patrulha de contrários cogitares
Apoucando o rosto do amor.
Nesta triste análise das coisas
Levo na bagagem vazia de desprezo
Com a indiferença dos cegos carrego
O ar indolente de um cabo-verdiano idiota.
A besta que em mim dorme estremeceu
Num lugar qualquer dentro de mim
Com a sequidão infernal de vingança,
De repente congelou, após raciocinar.
Queria escrever um poema clemente
Sem a tinta do ódio nas palavras
Sem a brutalidade engenhosa
Que pinga gota a gota nos jornais.
Queria ser o “poeta” dos ignorantes
Sentado no laboratório da Panaceia
A fabricar versos para todos os males
Que padece este nosso mundo.
Oslo, 05.07.17
Domingos Barbosa da Silva
São Lourenço do Fogo
A Igreja chora quando chove
Os fiéis levam guarda-chuvas
Do tecto pinga a água.
Quando a chuva bate no telhado
Todos levantam o seu guarda-chuva
Para não se molharem.
Clamam ao Céu num murmúrio
Imaginando um tecto
De que não mais pinga.
Semeiam na fé a esperança
E esperam dos Amigos
Que o milagre aconteça.
Rogam aos céus
Que essa chuva venha sempre
E caia nos beirais do telhado.
Que o sol se apague de mansinho
E caia mais chuva branda
Excepto dentro da Igreja.
Este sonho louco dos fiéis
Emerge agora na diáspora amiga
Implorando com sua ocarina.
Pintam estes sonhos nas paredes
Atrás do altar, um presente
Todo, ao alcance das mãos.
No fim, ficam sorrindo os fiéis
Batendo palmas de alegria
Que já não pinga dentro da igreja.
“Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.”
Domingos Barbosa da Silva
Noruega / Norway, 11.6.17

Embalsamo dentro deste pacote
Um pó fino de estrela, para ti
Não o abre antes de amanhecer
É só um presente, não precisas agradecer.
O anjo que me serve de carteiro
Te dirá que é para tratar com cuidado
O que no papel de seda está embrulhado,
Num tom feliz que te trás desespero.
Adiantando, te confesso minha amiga
Leva a luz da minha alma o pacote
Afagos e colorido em busca de deleite
E da fragrância que nos envolve de alegria.
Então, quando a madrugada chegar
Com cuidado dos deuses, abre o papel aveludado
Encontrarás lá dentro o brilho das estrelas
É o perfume dum amor embalsamado.
Recordar é viver
Aos meus primos na Merca
Recordando o real perto de uma praia
Depois de sintonizar a corda fininha
De um violão, aquela fina e doce prima
Que bebeu um pouco da minha emoção
Num jeito alegre de uma flor ao luar
Atraindo-me, cativando-me àquela praia
Para um piquenique tão bom, tão prazeroso.
O caminho longe, encurtado pela amizade
Momentos dignificantes, nas curvas da saudade
Vibraram nas primas de especiais instrumentos
Naqueles momentos de inesquecíveis tardes
Colocados no perfeito átrio do Altíssimo,
Mais fortes que a luz e o brolho do sol,
Abençoados com o suave jeito da flor ao luar.
Cravado em mim, sinto inda aqueles abraços
Para muitos, surpreendentes momentos
Escapando de tão longe olhos ciumentos
Apegos que vão espelhando em nossas almas
Em pulsações de calor de fraterna natureza
Transformando alegres instantes a curta presença
E um chegar e partir que no tempo se irmanam.
Florida, 4 de Junho de 2016
Parabéns, Cabo Verde
Oslo, 5 de Julho 2016
Hoje, venho procurar-te
Por teu amor molhar os olhos
Venho segredar ao sal
Destas lágrimas vertidas,
Nos píncaros da saudade,
Pelo teu filho foragido
A procura do teu poema
Na orla do teu oceano.
Depois de por ti molhar os olhos
Um silencio erguendo na vastidão
Esculpindo numa prece um sorriso
Um sorriso numa ausência repetida
Uma ausência que evapora
Enquanto marchando ao teu lado
Ao teu lado sem que tu saibas
Que através de ti, o caminho encontro.
Devagar, entregar-te-ei minha saudade
Entregar-te-ei a minha física
Entregar-te-ei os meus sorrisos
Donde ressalta da rosa a pétala
Os aromas que exalam daquele botão
Perfumando-te, eternizando-te
Na macieza perene do teu carinho
E na nervura deste verso que te dedico.
Oslo, 5 de Julho 2016
Domingos Barbosa da Silva
Abro de par em par a porta da noite
Ao convite de madrugadas tantas
Para escutar o som duma ocarina
Que chega encamisada em melodia.
Abro par em par a porta da noite
Numa enorme vontade de ficar só
Dentro de silêncio que percorre rugas
Traçando na cara esboço dum sorriso.
No largo da terra onde me conjugo
À sombra duma noite esbelta e longa
Escorrem memórias de um tempo
E sons da ocarina feita com as mãos.
A noite brinda-me com um sorriso
Fervilhando o sangue nas têmporas
O sangue com que brindo a vida
A vida, com a erosão feita na testa.
Noruega, aos 09 Maio de 2005
À gente de Chã das Caldeiras
Tu, que na via dolorosa da existência
A vida cruzou o fadado caminho,
Tu, que com o punho em riste cantas,
O orgulho daquela encruzilhada!
Tu, sobre quem tombou a infortuna,
A tua íntima sorte, nada há que a importuna.
No fundo do teu pensar, se afunda a chaga
Nos teus olhos, há esperança que não se apaga.
Oh, alma viva das paixões da vida
Tu, que na grinalda constante da dor
Sob protesto calado, a lentos passos
Foste afastado do ninho da Saudade!
Oh, se o não-ser equivale ao nada
No teu coração escorrega a rubra lava
Esconde o vulcão-pai teu sofrimento
No dantesco centro inquieto da dor.
Aqui de longe, com um peito asfixiado
Nesta baixa, um coração amigo, entristecido
Fica vendo e pensando, após tudo perdido
Como quem quebra o objecto mais estimado.
Colocando as suas mãos nas tuas mãos, quer
Afastar o vulto sobre sombrias herdades, ver
Somente os cachos avultosos das suas uvas
E os pássaros saltitando de galho em galho,
Esconjura todas as faíscas e pedras de lumes
Todo o ardente calor da incandescente lava,
Que racha a terra como se fosse água diluvial,
Todos esses males, a tua dor não apagam,
Envolta na Fé imaculada no Altíssimo,
Afasta para longe, o trilho acidentado,
Grita para que se ressoa o seu bramido,
Da dor encarcerado dentro do seu peito.
Noruega, 25.11.14
A noite esbelta me olhou desconfiada
Como que na mente tivesse um pensar
Esculpindo em pensamento asas
Feitas de plumas de asas do teu olhar.
Imaginei-me sobre um tapete a voar
Dando voltas aos teus sorrisos amigos
Eu, a imaginar, esse teu preto olhar
Essas uvas que tanto mexem comigo.
Inventei uma molho de pensamento
Enquanto a noite me espreitava
No meu olhar fixo no firmamento.
Então, num abraço de nós dois, apenas,
Colhemos um pedaço desse firmamento
Num suave tateio de mãos carinhosas.
Co nha odjo fincado na bó
N’sinti bo mon tocâ nha dor
Di câ podê ser di bô.
Bô entrâ dento nha alma
Bô rossâ fio di nha corasan
E saí melodia di ser di bó.
Dichan discansâ sossegado
Dichan sunhâ co speransa
Dichan durmi na bo sombra.
N’crê bibê na bo corasan
Fincado nun bejo sen fim
Pâ nu disquisê di tempo.
Tâ qui bo atchan tâ discansâ
Na sombra dun strêla
Ê bô sombra qui stâ sombram.
Longe de bô n’nacê pam vivê
Num lonjura que câ tem fim
K’ ês vivência m’nacê pa’m sonhâ
De sempre andâ c’ bô na nha pêto.
Nha distino ê pâ assim sonhâ
Kim n’tembo pregado na pêto
Kmô sinal dum grande amor
Kmô um flor fincado na coraçam.
M’tem um ramo de flor pâ bô
K’mô prova de recordaçam
Bu strêla ê luz de confiança
Ki dam txabi de bu coraçam.
Ku ês txabe m’tabri bu céu
N’tachâ um monte felicidade
N’ta discobri segredo de b’amor
Ki ê igual quel quim sonhâ.
| 1 | Saudades da minha infância |
| 2 | Dúvida |
| 3 | Um presente |
| 4 | Nas asas do meu pensar |
| 5 | Ecos nostálgicos |
| 6 | Alvito ao longe |
| 7 | Tarefas caseiras a Nanda |
| 8 | Alento |
| 9 | Gritos duma estátua |
| 10 | A cortina da lonjura para Vavá |
| 11 | Hino de amor |
| 12 | Cabo Verde pequenino |
| 13 | Não posso ser... |
| 14 | Foi ele... |
| 15 | Sou marinheiro |
| 16 | Poeiras |
| 17 | Amor a Cabo Verde |
| 18 | O cinco de Julho, 2009 |
| 19 | Uma lembrança (A Renato Cardoso, 20 anos depois) |
| 20 | Indiferença (A Renato Cardoso, post mortem) |
| a | A Odisseia Crioula |
| b | Correio Eletrónico: dombsilv@online.no |
Outras Poesias (Em Crioulo)
| 1 | Bem obi li |
| 2 | Amizade |
| 3 | N'crê ser bo poesia |
| 4 | Até qui enfin! |
| 5 | Na sombra dun strela |
| 6 | Prisionêra |
| 7 | Nota di nha violan |
| 8 | Segredo |
| 9 | Ilha di nhâ sonho |
| 10 | Um regresso triste |
| c | ( Para Consultas e Pedidos de Obras do Autor ). Correio Eletrónico: dombsilv@online.no |
Na dispidida
Pâ nhôs tudo ki bem!
N’stâ t’odjâ uns carinhos na altura
Nuvens di baxo, co céu di cima
Cmó nha pensamento na tontura
Tâ imitâ som suave d’um rima.
Má pobre di nós qui fica
Na meio de nevi tâ pensa
Na quês irmuns qui bâ
Pâ lonji, lonji di nós odjâr.
Nós, du fikâ tâ obi ês tâ papi
C’mó um morna bonito e sabi
Cantado na nota contente
Qui ta trâ tudo dor di alma
Di quem qui tâ sonhâ sabe
Dum curto visita de nós gente!
Oslo, 19.12.05
Domingos Barbosa da Silva
Na dispidida II
Lua pagâ na céu di rapente
Kanto tudo nhôs fra tchau
De rapente, céu ficâ triste
Deus segredan: min stâ quês.
Má nha corasaun sinti calado
Na sombra de nós amizade.
Má agrabo abstrato de sodade
Ficâ tâ batê forte dento di mi
C’mó cantiga di tchintchirote,
El fazê nha pêto birâ contente
N’odja nhôs alma ta arri co mi
Suma Mona Lisa de olho santo.
Só sim n’tâ festejâ nhôs presença
Sim n’ta sinti nhôs abraço na ausência
Só sim n’ta odjâ nhôs di perto
Enquanto ôto arguém tâ dâ nhôs joia
Min tâ dâ es verso que tâ durâ pâ sempre.
Ana, Domingos, Maryann, Mere,
Tumeu, cô José e Olivia suma um bela
Cendido na pó de nós bandera
De amizade qui Deus danu
Pâ du construi um ponto de sodade.
Oji n’entrâ na Greja pan razo
N’subi altar que dúvida construí
N’sinti arguém chaputin na costa
Quel arguém era nhôs tudo sete
Quê um númro de origen prefeto.
Ó Nhordés, min tâ crê na Nhô
Má Nhô purdan, se dúvida qui n’tem
Tâ biran piquinino c’mó pecador pobre!
Má, n’crê assi pan morré na luz
Ó morré pan bibê junto di Nhô.
Ó Greja quêto dento di mi
Pô na mi bô feison divina
Pan podê sinti tchêro de amizade
Tudo bês qui n’pensâ na nhâs
Irmuns qui tâ bibê n’ôto rubera.
20.12.05
Despedida III
Para Jose, Mere, Olivia, Domingos, Ana, Tumeu e Maryann
A nota festiva do nosso rebuliço
Na hora de despedida murchou
Deixando atrás um silêncio bulício
A tocar na corda que a saudade deixou.
Naquela hora, de minutos fugitivos
Ergui uma reza que jamais alguém disse,
Com lágrimas a pingar no engasgo fustigo,
Baixei o semblante para que ninguém o visse.
Naquela fria hora, caminho liso, transpus,
Como um menino sob comando padrasto,
A deixar a festa, a deixar a porta, sem gosto
A transpor a bioquímica dos nossos óbolos
Mas, bendito seja, o vosso alegre alvoroço
Minha emoção futura, que hoje vos conto.
(depois dos telefones da vossa chegada)
(Como) Natal (é para mim)
Hoje é Natal – a noite primeira
Em que o homem vê num grão de areia
O Filho, que o resgata da cegueira
E abranda, em sua glória, todos à sua beira.
Hoje creio que amanhã venceremos
Que debaixo dum céu claro e fundo
O Espirito de Alto paire na paz no mundo
Reflectindo a verdade que no céu vemos.
Hoje, do contorno dum amplo firmamento,
Chega a Estrela – de todas a mais brilhante
Para habitar a imensa catedral no meu peito
Onde, em nome d’amor, sai aleluia iminente.
Natal é serenata, é alegria, é aleluia virginal
É irradiação intensa de lâmpadas suspensas
Dentro de mim - no tecto da grande catedral
Iluminando o interior cristalino das crenças.
Natal, é a ponte forte - fonte de união
Meu único Norte de referência cósmica
Que me faz pregar o olhar no azul d’amplidão
Meu único clarão nesta vida telúrica.
Natal de 2005
Emigrante em férias
O tempo sumiu-se num foguetear
Como negrejantes cúmulos de ilusões
Galgando sonhos nublados e fugazes
Sobre um sentir tão belo, a fervilhar.
Estava passando bem junto à estrada
Que a infância espezinhou aos bocados
Tão depressa uma lembrança magoada
Emergiu-lhe, tão belo sentir, lá dos astros.
Lembranças lhe arrancaram da garganta
Um fio de soluços - que calado engoliu
Despejando do peito um rosário de pranto.
Do fundo do crânio, a lembrança congelada,
Com as árvores no estado de interjeição, sumiu
Para apagar dentro de si a flama do peito.
Oslo, 28.12.05
Dúvida
Eu ando atrelado a uma grande dúvida
Trancado numa escuridão aterradora,
O abismal ergástulo que me estraga a vida,
Pensando se há ou não uma Luz libertadora.
Mas, dentro da escuridão cavernosa insisto
Na corda melódica uma harmonia anímica
E deixo vibrar no éter o gemido dum grito
Num gesto de me aliviar duma dor fatídica.
Embora a lua meu pensamento aclare
A noite cavernosa de estrelas fulmíneas
Insistem minhas trevas atoladas na areia
Da dúvida, numa cabeça louca, que equipare
A luz que desfalece enquanto a noite cresce
Uma algema, que morde o âmago e reaparece.
22.01.06
Existênsia
Si ontem bô amparan
Oji ês amparo ê certeza
Oji ê luz, na bô ragáaz
Manhâ ês suma speransa
Na nha pêto di criansa
Tâ quim cantâ ês poesia
C’mó sinal di cortisia,
Pâ tudo ês bô grandeza
Scrito na cada fódja caído
Tchan morâ na bó, existênsia.
Si un dia ‘n apartâ di bô amor
Si un dia ‘n negabo bo ragáz
Nês ninho qui bô dan
Dâ coragi pâ quem qui fica
Tâ sofrê nês mundo di dór.
Amizade
‘N ta amabo cô tanto ardor
Pamódi tanto arguén sem sorte
Stâ morré tudo dia, cô tanto dor
Qui na qu’el dia qui tchigâ morte
Ês câ tem más qui morré, amor!
Por isso, ‘n crê pâ bô ser mi
Na hora qu’in stâ ausente
Pâ bô arri dispatchado cô nhâs gente
Suma tudo quê di bó ê di mê.
Pâ ‘n podê sempre bendizê bô nome.
Min crê ser bó na bô ausência
Min crê ser amigo de bôs amigo
Um poco más qui propi bó
Cô amor, cô carinho, cô sodade...
Pam morrê de sodade, de amor...
Bó ê nha padaz de estimasaun
Qu’in tâ crê codjê tudo padacim
Se um dia destino quebrado
Fitchado na tamanho de nha braço
Qui nha imaguinasaun tâ daun.
Teu ânimo
Para Prima Letxa
Imagina um alegre pôr-do-sol
Sentada no ramo duma mangueira
Respirando o perfume dum girassol
Com saudade interior da tua ladeira.
Pega então do teu pano de bordado
Pinta aquele pôr-do-sol, exacto
Vira os teus olhos para outro lado
Para as estrelas do teu firmamento.
Imagina um sonho cor de rosa
Igual ao lar que construíste, orgulhosa
Tal-e-qual aquele pôr-do-sol.
Imagina, ainda, o bordado duma rosa
Que nasceu dos teus afagos, misteriosa
Regada com as lágrimas do teu Sol.
Espanha, 08.11.05
Alento
Para Prima Letxa
Quando o ânimo chega devagar
E entra teus olhos de cansaço
Vejo dentro do teu intenso olhar
A dor estendida nos teus braços.
Coração de prima, tão moça e bela,
Tão profundo ferido pelo espinho
Que a doce vida às vezes nos revela
Põe coragem à vida no teu caminho.
Eu sei da tua história e tuas correrias
Nos pedregulhos corredores de amor
E dos segredos que te causam a dor.
Hoje, para revelar a tua oculta alegria,
Canta uma canção que afugenta a dor
Chora, com sorriso, a dor do teu amor!
Espanha, 09.11.05
DOMINGOS BARBOSA DA SILVA
Sorriso da alma
Vou tentar sonhar um pôr-do-sol, logo,
Digamos, do cume do Pico do Fogo,
Digamos também, no embalo duma serenata,
Ainda, nos valores que a alma me concerta.
Abraço daí com amor o mundo, com efeito,
E do centro do longo abraço, sobre o peito,
Chega o cheiro estonteante de uvas...
Do pedestal do Gigante, que, às vezes, uiva...
Neste sonhar gostaria que sentisse abraçado
Que do centro da serenata e do longo abraço
Se brota um ser que se sente apertado
Uma benesse estonteante derivada do enlaço.
No embalo da serenata mando um beijo
Que alcança todos os corações em chama
Um beijo que fica tatuado na ígnea flama
Do fio da diáfana água dum lindo riacho.
Do riacho ecoa uma melodia uniforme
Trazida da origem natal do encosto
Das nuvens e dos mares que me dão alento
Que mata no meu peito a minha fome.
Deste peito salta uma melodia, em salmo
Com o som do cantos das aves, convulso
No barulho de águas passantes, como o pulso
Do sereno quebrar de águas, muito calmo.
Esta melodia sorridente, dum errante rio
É um beijo no poente doirado, no fim da serra
Uma memória indelével, da minha terra
Posto no riacho roncando, com delírio.
O riacho com a sua melodia corrente,
É segregação de lágrimas de transeuntes
Que não estanca a cede dos mares
Nem saudades do sorriso de mulheres.
Domingos Barbosa da Silva
Espanha, 20.11.05
Saudades da minha infância
Nos caminhos ínvios onde a amizade pisa
Ouço o redobro de orquestras dos grilos,
Que afasta o medo que às vez me dá preguiça,
Escondido nas folhas soltas, arrepiando pêlos.
Sol alto, a terra escaldante, pés no chão,
Uma constante vibrar de cordas indefinidas
Que acaricia o fundo inorgânico d’alma
Que entre pedras ou matagal roçam a emoção
Os pés, cansados, a pisar o solo infecundo
Triste de chorar magmas nos ninhos
Carrego hoje a cruz sobre minhas dores
Acordam as saudades pelos caminhos.
Com uma flama oriunda acesa no peito
O eco das nossas vozes nas ribeiras
Actuando como ponta da faca sobre lajes
Cortando nossos fundos orgânicos às raízes.
Braços cansados arrancando ervas
A orquestra dos grilos, emocionante
Caminhos que erguem gigantes espectros
Sons metálicos e incómodos de enxadas
Ao largo o sussurro do vento nos galhos
Dum tamarindo, cujos frutos suculentos
Quantas vezes me trazem arrepio à boca
Nos seus amplos e frondosos agasalhos.
Gritos duma estátua
Gritos flácidos saltam do fundo
Duma estátua espiando as estrelas
Que iluminam os vultos, olhando
Em silêncio as nossas tristezas.
Soberana voz, soberano grito
Que sai das mandíbulas inertes
Da estátua que perdeu o tacto
De sentir o reflexo do sol poente.
Divino som que sai duma ocarina
Profana, oca, duma peanha dura
Da ultrafatalidade duma aventura
Gemidos, puro e de cor vermelha
Crepitando em ritmos duma fagulha.
Pulsando como mensagem divina.
Domingos Barbosa da Silva
Novembro de 2005
Parabéns Cabo Verde
Por que te quero perto de mim
Neguei o mundo pelo teu olhar
Combati a luta para te conquistar
Com cada grito que dei por ti.
Com carga de emoção que perdura
Escrevo teu nome nas nuas rochas
Gravando a colorido nas pedras tuas
O sangue rubro da minha candura.
Do sonho que vivi neste espaço
Dei um mais distanciado passo
Para ti alcançar, para ti beijar.
Longe dos píncaros da história,
Dos sagrados templos da memória
Meu coração te invoca, deste altar.
Domingos Barbosa da Silva
Noruega, 5 de Julho de 2005
Vinte e cinco prateado
Vinte e cinco anos misturando
Emoções, pisar pela ingrata dor
Que coisas e mágoas deste mundo
Sobrepõem as chagas de amor.
Na distância – ha um respiro de odor
Que espalha pelos cantos invisíveis
O respiro dum ar chamuscado de dor
Nas substancias tépidas e dissolúveis .
O sol da esperança - espreitando laços
Queima e morde os vinte e cinco
No terreno alheiro com seus cachos
E salta para o lado dos nossos afincos.
Com a face macerada pela emigração
Longe do regaço da nossa nação.
Bó ê cadiado qui ficham
Na tamanho di bó braço
Mi ê sombra di bô passado
Longe di nôte qui dja passâ
Um regresso triste
Um bês um semeador, um sunhador
Kria djobê um bida midjó na strangêro
El tâ andába suma um pomba roncador
Pamôdi parcêba manêra de ranjâ dinhêro.
Má pâ Sul êl tinha qui bâ pa tropa
E el bá tâ tchorâ - cô dor na corason
Êl dixâ quel sonho de emigrâ pâ Europa
El lebâ um sacon de sodadi na mon.
Irmaun, primo, amigo, nativo, morrê tudo
Um dia el voltâ pâ terra cô recordason
E na cara el trazê tcheu ruga di perdison.
Má kanto êl voltâ cô cara tudo curtido
Ê câ atchâ quel possibilidade di kêl sonho
Nem sê namorada staba na sê caminho.
Sonho dum exilado
‘N crê regressâ pâ terra ‘npurrado na onda
Na onda di bidjice – num bote miudinho
Tâ dislizâ na Alcatraz – devagarinho
Suma Ernestina de costela caracunda.
Ó terra que recebém cô braço aberto
Dichan cantâ nha pátria ês dor peregrina,
Antis del fazem firida na nha pêto,
Ês cantiga de sodade, na som de morna.
Mi ‘nca tâ disquidê di bó, terra madrasta
Suma ‘n câ disquicê pedra di nha ninho
Dundi ‘n trazêba um monte de carinho.
Colado na pêto ‘n trazêba um imagem santa
Di qu’el sonho que um dia era comum
Quel sonho de voltâ, di tudo nós irmum.
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